sexta-feira, 13 de maio de 2016

Determinações e implicações do riso

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Enquanto Danilo Gentili chama uma senadora negra de "tia do café" (atualizando aquela velha memória discursiva de qual deveria ser o lugar dos negros na sociedade), o Sensacionalista faz um humor que desconstrói o que está posto.
Como toda prática social, rir é uma tomada de posição no interior de uma relação de poder. Um ato político. Como se diz na Análise de Discurso, o sentido é político porque é dividido.
Há um "humor" saudoso de como algumas coisas eram (e não espanta que seus alvos sejam sempre os mesmos). Esse humor esconde uma pergunta chave, à qual, suspeito, os que riem não dariam importância: "do que mesmo se ri naquilo de que se ri?".
Felizmente, há um outro humor. Ao cotejar o que há com o que poderia/deveria ali estar, este humor não mostra apenas que o nonsense da justificativa humorística acompanha o nonsense da justificativa real ("os escolhidos para ministro eram os mais qualificados"; "não havia mulheres ou negros qualificados para o cargo" etc.).
Ele desdobra a piada sobre a piada, desconstruindo, pelo cômico, a naturalidade com que vamos assistindo à tragédia dos nossos tempos.
Não me furto a uma tomada de posição mais explícita. O primeiro riso é ignorância (ignorância de suas determinações ou "ignorância" no sentido de rudeza insensível). O segundo é, deslocando (muito?) as palavras do Nietzsche sobre a arte, necessário para que a verdade (ou a rudeza) não nos destrua.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Escutemo-nos

Como piada é simplória, mas permite alguns apontamentos sobre o que me parece ser a voz do desconhecimento.
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Passando ao largo da questão religiosa (isto é, restringindo-me a saberes do cristianismo como um objeto cultural), Jesus, a presença e a voz de Deus entre os homens, na narrativa bíblica, cresceu em meio a uma família e em um entorno assaz pobres. Logo, é de concluir-se que a variedade linguística em que se constituiu sujeito de linguagem e que usou para fazer chegar sua mensagem ao povo não era a socialmente prestigiada. Era a variedade dos excluídos, dos miseráveis, dos alijados dos bens materiais e culturais da sociedade.
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Como ciência da linguagem, a Linguística descreve o funcionamento de qualquer variedade, mostrando que, no caso da linguagem popular, o que parece um emaranhado de construções sem valor e sem regra obedece SIM a uma gramática da língua e tem, no âmbito do estudo científico, o mesmo status. Digressão necessária: a Linguística NÃO diz que a variedade popular deveria ser ensinada nas escolas.
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Ficarei só na primeira para que o texto não se torne ainda mais longo.
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Ri-se de quem fala "prástico", mas o rotacismo (essa mudança do "l" para "r") não acontece em qualquer contexto linguístico (quem fala "prástico" não chama uma lesma de "resma") nem é um fenômeno estranho ao português. "Igreja" derivou do latino "ecclesia" (daí o adjetivo português "eclesiástico" em vez de um "igrejiástico"). Quem ouve "prástico" e pensa que "estão assassinando a língua portuguesa" talvez se surpreendesse com o fato de que Camões, uma das expressões máximas da língua, escreveu "frecha" -- um dos tantos indícios do quão cuidadoso devemos ser com a noção de "erro" em língua.
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Esse cuidado não deve ser apenas diacrônico (perspectiva da história -- percebendo que o "erro" de ontem pode ser o acerto de hoje), mas também sincrônico (perspectiva da atualidade). Exemplifico. Ao menos aqui no RS, dificilmente ouço alguém falar "fROUxo", "afROUxar" e não me refiro à esperada monotongação de "ou" em "o". O que ouço, principalmente mas não apenas, em situações não monitoradas de linguagem (isto é, quando o falante não é ou não se sente avaliado pelo modo como usa a linguagem), é "fLOxo" e "afLOxar".
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A questão aqui não é defender que se rie também de quem fala "fLOxo" em uma conversa quotidiana (o que seria uma idiotice) nem que se ensine na escola a forma com "l" (o acesso aos bens culturais passa pela apropriação da variedade eleita -- note-se que não afirmei "melhor"). A questão é que esse critério de definir o errado (e o risível) por aquilo "que dói no ouvido" é um achismo que parte do desconhecimento até mesmo do que é uma língua. Mais que isso, infelizmente: é um achismo arrogante, porque despreza uma área de estudos que se vale de bancos de dados para validar suas afirmações, e nocivo, porque interfere para pior tanto na educação quanto na promoção da cidadania.
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Voltando ao "humor", Jesus valer-se-ia de construções estigmatizadas (não exatamente rotacismos, plosivização da fricativa etc., mas seguramente distantes da variedade de prestígio). Ademais, eu apostaria que, confrontado a essa pérola, a resposta de Jesus seria algo como "escuta-te a ti mesmo", com o brinde de um bom vinho multiplicado se o ouvinte souber por que um verbo transitivo direto vem seguido por uma preposição e qual o efeito de sentido advindo do pleonasmo. Ou ele (Ele) mandaria atirar a primeira pedra apenas aquele que nunca se vale de uma construção não defendida pela gramática tradicional (a livresca). Não tenho dúvidas de que restaríamos todos desarmados.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Lugares

                                                                          Fonte da imagem



Está aí uma propaganda que, visualmente, produz um efeito de sentido interessante, ao pôr em evidência uma cientista e um cientista negro.
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Ao investir contra um imaginário ainda cristalizado de "cientista" e contra as representações de mulher e negro profissionais na publicidade-propaganda, esta peça textual acaba se dirigindo também às meninas (que não precisam procurar áreas que valorizem a "sua" sensibilidade interpessoal) e às crianças negras (que não precisam se restringir à tríade esporte-música-trabalho braçal).
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A essas crianças, a propaganda diz o que não é (muito dito): "a ciência também é um lugar para vocês".

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Conto de fadas revisitado

Na mudança do narrador, uma outra posição-sujeito e suas ressignificações, seus deslocamentos de sentidos.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pré-construído e discurso transverso em enunciados idem per idem.

O pré-construído e o discurso transverso são duas importantes noções da AD não apenas pelo rico debate teórico que proporcionam, mas também pela sua produtividade analítica.

Este artigo publicado na Gragoatá (UFF), produzido no LEAD/UCPel, visa a discutir e aplicar esses conceitos.
Link: http://www.uff.br/revistagragoata/revistas/gragoata34web.pdf


terça-feira, 27 de maio de 2014

Produção acadêmica

Artigos publicados:

ERNST-PEREIRA, A. ; QUEVEDO, M. Q. de . Pré-construído e discurso-transverso: ferramentas de derrisão em uma charge de Latuff.Desenredo (PPGL/UPF), v. 9, p. 325-339, 2014.
http://www.upf.br/seer/index.php/rd/article/view/3851/2518

ERNST-PEREIRA, A. ; CAZARIN, E. A. ; QUEVEDO, M. Q. de . Para além do efeito de circularidade: interpretando as noções de pré-construído e articulação a partir de enunciados idem per idem.. Gragoatá (UFF), v. 34, p. 131-143, 2013.

Dissertação:

http://antares.ucpel.tche.br/poslet/dissertacoes/Mestrado/2012/Do%20Gesto%20de%20Reparar%20a%28%E0%29%20Gest%E3o%20dos%20Sentidos%20-%20Marchiori%20Quadrado%20de%20Quevedo.pdf


terça-feira, 10 de julho de 2012

Receita de dizer







RECEITA DE DIZER:

1. PEGUE UMA FRASE DE ALGUÉM FAMOSO;
2. FAÇA UMA "SOBREASSEVERAÇÃO" (NO SENTIDO DE MAINGUENEAU);
3. "ESCOLHA" ITENS A PARTIR DOS QUAIS SE CONSTITUA UMA OUTRA POSIÇÃO-SUJEITO (PREFERENCIALMENTE ANTÍPODA À OCUPADA POR ESSE ALGUÉM).

PRONTO:
VOCÊ TERÁ DITO, COM AS PALAVRAS DE ALGUÉM, O QUE ESSE ALGUÉM NÃO DISSE.



É ESSE CALDO MORNO QUE NOS É SERVIDO NA IMPRENSA TODOS OS DIAS...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Discurso (do/sobre o) "sexo frágil"


O que me causa espécie é esse saber oriundo do imaginário sobre a mulher ainda ser formulado, textualizado, aqui, bem como frequentemente alhures.Se a frase é, de fato, de autoria da ex-ministra pouco me importa, mas não seria exatamente inédito que fosse enunciado por uma mulher. Em Orlandi, temos que o discurso sobre X se torna paulatinamente o discurso de X sobre si mesmo. Isso explica mulheres vendo a si mesmas, a partir do que lhe foi ensinado como uma particularidade do género: ser indefesas e (mas) vingativa. Haja discurso sobre o "sexo frágil", que constrói o género também da natureza, para bem além do gramatical.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A língua fazida no dia a dia


Volta e meia, surgem os registros das "pérolas", acompanhadas como de praxe, por comentários acerca do uso popular da língua portuguesa, supostamente ameaçada, corrompida, degradada... Nisso, parece-me modelar a reflexão de Moreno, que admite rir dos torneios verbais que apenas escondem um raciocínio absurdo ou deficitário, mas abdica de ver graça nos letreiros escritos por aquela faixa da população a quem não são garantidos "estudo formal" e "proteína".

O que me surpreende é ver, nessas coletâneas "engraçadíssimas", escritos que jogam justamente com esse humor provocado por determinados usos "errados" da língua. É uma conjectura, mas duvido que o simpático senhor da foto não saiba que "fazida" ou "pida" sejam usos coloquiais da língua e avalizados negativamente. Aposto que o que ele sabe é que o efeito de humor associado a alguns usos não padrão da língua lhe rendeu quase um "top of mind" nas areias de sua praia, o que não ocorreria com escolhas lexicais padrão.

O riso dele pode ser lido como a resposta do "sujeito tático" a quem o incluiu numa dessas coletâneas ou postagens em redes sociais na internet. Pensando ter provado sua indignação com o "assassinato da língua portuguesa", o pseudoespecialista, na verdade, só fez publicidade gratuita de tapioca. Publicidade que aqui encontra reverberação; menos pela qualidade gastronômica, mais pelo uso lúdico do sistema linguístico.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Foto sem legenda

Fonte: www.veja.com.br

Quando o interdiscurso é "bom", legendas são desnecessárias...