sexta-feira, 13 de maio de 2016

Determinações e implicações do riso

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Enquanto Danilo Gentili chama uma senadora negra de "tia do café" (atualizando aquela velha memória discursiva de qual deveria ser o lugar dos negros na sociedade), o Sensacionalista faz um humor que desconstrói o que está posto.
Como toda prática social, rir é uma tomada de posição no interior de uma relação de poder. Um ato político. Como se diz na Análise de Discurso, o sentido é político porque é dividido.
Há um "humor" saudoso de como algumas coisas eram (e não espanta que seus alvos sejam sempre os mesmos). Esse humor esconde uma pergunta chave, à qual, suspeito, os que riem não dariam importância: "do que mesmo se ri naquilo de que se ri?".
Felizmente, há um outro humor. Ao cotejar o que há com o que poderia/deveria ali estar, este humor não mostra apenas que o nonsense da justificativa humorística acompanha o nonsense da justificativa real ("os escolhidos para ministro eram os mais qualificados"; "não havia mulheres ou negros qualificados para o cargo" etc.).
Ele desdobra a piada sobre a piada, desconstruindo, pelo cômico, a naturalidade com que vamos assistindo à tragédia dos nossos tempos.
Não me furto a uma tomada de posição mais explícita. O primeiro riso é ignorância (ignorância de suas determinações ou "ignorância" no sentido de rudeza insensível). O segundo é, deslocando (muito?) as palavras do Nietzsche sobre a arte, necessário para que a verdade (ou a rudeza) não nos destrua.

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